DENTES DE FERRO SOBRE O BRASIL. Eduardo Galeano

Para os Estados Unidos sai mais barato o ferro que recebem do Brasil ou da Venezuela do que o ferro que extraem de seu próprio subsolo. Porém, esta não é a chave do desespero americano para apoderar-se da jazidas de ferro no exterior: a captura das minas fora de fronteiras constitui, mais do que um negócio, um imperativo de segurança nacional.

O subsolo norte-americano está ficando, como vimos, exausto. Sem ferro não se pode fazer aço e 80% da produção industrial dos Estados Unidos contém, de uma forma ou de outra, aço. Quando em 1969 se reduziram os abastecimentos do Canadá, isto se refletiu de imediato num aumento das importações de ferro da América Latina.

A serra Bolívar, na Venezuela, é tão rica que a terra que lhe arranca a US Steel Co. é
descarregada diretamente nos porões dos navios rumo aos Estados Unidos, e já exibe em seus flancos, as profundas feridas que lhe vão infligindo os bulldozers: a empresa calcula que contém cerca de oito bilhões de dólares em ferro. Em um só ano, 1960, a US Steel e a Bethlehem Steel repartiram lucros de mais de 30% de seus capitais investidos no ferro da Venezuela, e o volume destes lucros foi igual à soma de todos os impostos pagos ao Estado venezuelano nos dez anos transcorridos desde 1950.

Como ambas as empresas vendem o ferro com destino a suas próprias usinas siderúrgicas nos Estados Unidos, não têm o menor interesse em defender os preços; ao contrário, convém que a matéria-prima seja a mais barata possível. A cotação internacional do ferro, que caíra em linha vertical entre 1958 e 1964, estabilizou-se relativamente nos anos posteriores e permanece estancada; enquanto isto, o preço do aço não parou de subir.

O aço se produz nos centros ricos do mundo, e o ferro nos subúrbios pobres; o aço paga salários de “aristocracia operária,- e o ferro diárias de mera subsistência. Graças à informação que recolheu e divulgou, lá pelo ano de 1910, o Congresso Internacional de Geologia, reunido em Estocolmo, os homens de negócios dos Estados Unidos puderam pela primeira vez avaliar as dimensões dos tesouros escondidos sob o solo de uma série de países, um dos quais, talvez o mais tentador, era o Brasil. Muitos anos depois, em 1948, a embaixada dos Estados Unidos criou um cargo novo no Brasil, o adido mineral, que de entrada teve pelo menos tanto trabalho como o adido militar ou cultural.
Tanto, que rapidamente foram designados dois adidos minerais em vez de um. Pouco depois, a Bethlehem Steel recebia do governo de Dutra dois esplêndidos filões de manganês do Amapá. Em 1952, o acordo militar assinado com os Estados Unidos proibiu o Brasil de vender as matérias-primas de valor estratégico -como o ferro – aos países socialistas.

Esta foi uma das causas da trágica queda do presidente Getúlio Vargas, que desobedeceu esta imposição vendendo ferro à Polônia e Tchecoslováquia, em 1953 e 1954, a preços muito mais altos do que os que pagavam os Estados Unidos. Em 1957, a Hanna Mining Co. comprou, por US$ 6 milhões, a maioria das ações de uma empresa britânica, a Saint John Mining Co., que se dedicava à exploração do ouro de Minas Gerais desde os longínquos tempos do Império.

A Saint John operava no vale de Paraopeba, onde há a maior concentração de ferro do mundo inteiro, avaliada em US$ 200 bilhões. A empresa inglesa não estava legalmente habilitada para explorar esta riqueza fabulosa, nem estaria a Hanna, de acordo com disposições claras constitucionais e legais que Osni Duarte Pereira enumera em sua obra sobre o tema. Porém este foi, segundo se soube logo, o negócio do século.

George Humphrey, diretor-presidente da Hanna, era então membro proeminente
do governo dos Estados Unidos, como secretário do Tesouro e como diretor do Eximbank, o banco oficial para o financiamento das operações de comércio exterior. A Saint John tinha solicitado um empréstimo ao Eximbank: não teve sorte até que a Hanna se apoderou da empresa. Desencadearam-se, a partir e então, as mais furiosas pressões sobre os sucessivos governos do Brasil. Os diretores, advogados ou assessores da Hanna – Lucas Lopes, José Luiz Bulhões Pedreira, Roberto Campos, Mário da Silva Pinto, Octávio Gouveia de Bulhões – eram também membros, ao nível mais alto, do governo do Brasil, e continuaram ocupando cargos de ministros, embaixadores ou diretores de serviços nos ciclos seguintes.

A Hanna não tinha escolhido mal seu estado-maior. O bombardeio se fez cada vez mais intenso, para que se reconhecesse à Hanna o direito de explorar o ferro que pertencia, a rigor, ao Estado. No dia 21 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros assinou uma resolução que anulava as ilegais autorizações dadas de favor à Hanna e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional.

Quatro dias depois, os ministros militares obrigaram Jânio Quadros. a renunciar: “Forças terríveis se levantaram contra mim…” dizia o texto da renúncia. O levante popular encabeçado por Leonel Brizola em Porto Alegre frustrou o golpe dos militares e colocou no poder o vice-presidente João Goulart. Quando em julho de 1962 um ministro quis pôr em prática o decreto fatal contra a Hanna – que tinha sido mutilado no Diário Oficial -, o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, enviou a Goulart um telegrama protestando com viva indignação pelo atentado que o governo ameaçava cometer contra os interesses de uma empresa norte-americana.

O Poder Judiciário ratificou a validade da resolução de Quadros, porém Goulart vacilava. Enquanto isto, o Brasil dava os primeiros passos para estabelecer um entreposto de minerais no Adriático, com o intuito de abastecer de ferro vários países europeus, socialistas e capitalistas: a venda direta de ferro implicava um desafio insuportável para as grandes empresas que manejam os preços em escala mundial. O entreposto nunca se tornou realidade, porém outras medidas nacionalistas – como a restrição à drenagem dos lucros das empresas estrangeiras – foram colocadas em prática e proporcionaram estopins à explosiva situação política.

A espada de Dârnocles da resolução de Quadros permanecia em suspenso sobre a cabeça da Hanna. Por fim, o golpe de estado explodiu, no último dia de março de 1964, em Minas Gerais, que casualmente era o cenário das jazidas de ferro em disputa. “Para a Hanna – escreveu a revista Fortune – , a revolta que derrubou Goulart na primavera passada chegou como um desses resgates de último minuto pelo Primeiro da Cavalaria”.
Homens da Hanna passaram a ocupar a vice-presidência do Brasil e três dos ministérios. No mesmo dia da insurreição militar, o Washington Star publicou um editorial profético: “Eis aqui uma situação – anunciara – na qual um bom e eficiente golpe de estado, no velho estilo, dos líderes militares conservadores bem pode servir aos melhores interesses de todas as Américas”.

Goulart ainda não tinha renunciado, nem tinha abandonado o país, quando Lyndon Johnson não pode conter-se e enviou seu célebre telegrama de bons votos ao presidente do Congresso brasileiro, que assumira provisoriamente a presidência do país: “O povo norte-americano observou com ansiedade as dificuldades políticas e econômicas pelas quais atravessou sua grande nação, e admirou a resoluta vontade da comunidade brasileira para solucionar estas dificuldades dentro de um quadro de democracia constitucional e sem luta civil”.

Pouco mais de um mês tinha transcorrido, quando o embaixador Lincoln Gordon, que percorria, eufórico, os quartéis, pronunciou um discurso na Escola Superior de Guerra, afirmando que o triunfo da conspiração de Castelo Branco “poderia ser incluído junto à proposta do Plano Marshall, o bloqueio de Berlim, a derrota da agressão comunista na Coréia e a solução da crise de mudança da história mundial de meados do século XX”.

Um dos membros militares da embaixada dos Estados Unidos oferecera ajuda material aos conspiradores, pouco antes da denotação do golpe, e o próprio Gordon lhes tinha sugerido que os Estados Unidos reconheceria um governo autônomo, se fosse capaz de sustentar-se dois dias em São Paulo. Não vale a pena gastar testemunhos sobre a importância que teve, no desenvolvimento e desenlace dos acontecimentos, a ajuda econômica americana, da qual, de resto, nos ocuparemos mais adiante, ou da assistência dos Estados Unidos no plano militar ou sindical.

Depois que se cansaram de lançar na fogueira ou no fundo da Baía de Guanabara os
livros de autores tais como Dostoievski, Tolstoi ou Gorki, e após terem condenado ao exílio, à prisão ou à morte uma quantidade incontável de brasileiros, o recém-instalado regime militar de Castelo Branco pôs mãos à obra: entregou o ferro e todo o resto.

A Hanna recebeu seu decreto no 24 de dezembro de 1964. Este presente de Natal não só lhe outorgava todas as seguranças para explorar em paz as jazidas de Paraopeba, mas, além disso, apoiava os planos da empresa para ampliar um porto próprio a 66 quilômetros do Rio de Janeiro, e para construir uma ferrovia destinada ao transporte de ferro. Em outubro de 1965, a Hanna formou um consórcio com a Bethlehem Steel para explorar em comum o ferro concedido. Este tipo de alianças, freqüentes no Brasil, não podem ser formalizadas nos Estados Unidos, porque ali as leis as proíbem.

O incansável Lincoln Gordon tinha posto fim à tarefa, todos já estavam felizes e o conto tinha acabado, e passou a presidir uma universidade em Baltimore. Em abril de 1966, Johnson designou seu substituto, John Tuthill, ao fim de vários meses de vacilação, e explicou que tinha demorado porque para o Brasil necessitava de um bom economista.

A US Steel não ficou atrás. Por que iam deixá-la sem convite para o jantar? Antes de
que se passasse muito tempo, se associou com a empresa estatal, a Companhia Vale doRio Doce, que em certa medida se converteu, assim, em seu pseudônimo oficial. Por esta via, a US Steel obteve, resignando-se a nada mais do que 49% das ações, a concessão das jazidas de ferro da serra dos Carajás, na Amazônia. Sua magnitude é, segundo afirmam os técnicos, comparável à coroa de ferro da Hanna-Bethlehem em Minas Gerais. Como de costume, o governo aduziu que o Brasil não dispunha de capitais para realizar a exploração por conta própria.

 

Galeano, Eduardo: As Veias Abertas da América Latina: tradução de Galeano de Freitas, Rio de Janeiro, Paz e Terra, (estudos latino-americano, v.12)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: