Mundus Novus – Américo Vespúcio

Mundus Novus (1503)

Américo Vespúcio

“Ha dias lhe escrevi extensamente acerca do meu regresso das terras novas, que, na frota a expensas deste Sereníssimo rei de Portugal, corremos e descobrimos, as quais terras nos deve ser permitido chamar Novo Mundo, porque, entre os nossos maiores não houve o menor conhecimento de que fossem habitadas, e para todos que ouvirem será uma novidade.

E, entretanto, esta opinião vai além da dos antigos, pois deles a maior parte dizem que, além da equinocial, para a banda do meio-dia, não existia terra continental, mas somente o mar Atlântico, e os que afirmaram haver ai terra negaram que fosse habitada de racionais. Mas o ser esta opinião falsa, e a verdade o contrário, se provou nesta minha última viagem, pois naqueles meridianos encontrei terra continental habitada de mais povos e animais que a nossa Europa e a Ásia ou África, e os ares mais temperados e amenos que em qualquer outra região conhecida conforme direi, tratando do que vi ou ouvi digno de notar neste Novo Mundo, segundo se verá mais abaixo […]
I

             Começarei pela gente. Foi tanta a multidão dela, mansa e tratável que encontramos naquelas regiões, que, como diz o Apocalipse não se pôde contar. Os de um e de outro sexo andam nus, sem cobrir nenhuma parte do corpo, como saem dos corpos das mães, e assim vão até a morte. Têm os corpos grandes e robustos, bem dispostos e proporcionados, de cor tirante à vermelha, o que, segundo creio, lhes procede serem tintos pelo sol, andando nus […]

             Não possuem panos de lã nem de linho, nem mesmo de algodão; porque os não necessitam, nem têm bens de propriedade; porém tudo lhes é comum. E vivem juntos, sem rei nem Império, e cada qual é senhor de si.

             Tomam tantas mulheres quantas querem, e o filho se junta com a mãe, e o irmão com a irmã, e o primo com a prima, e o caminhante com a que encontra. Basta a vontade para matrimoniarem, no que não observam ordem alguma. Além disso não possuem templos nem leis, nem são idólatras. Que mais direi? Vivem secundum naturam, e se podem conceituar de epicureus mais que estóicos. Não há entre eles comerciantes nem comércio.

                                                                       II

             Guerream-se entre si, sem arte nem ordem. Os mais velhos, com alguma parcialidade, obrigam a quanto querem os jovens, e os levam à guerra, na qual se matam cruamente; e aos que cativam não poupam as vidas senão para que os sirvam toda a vida, ainda que a outros comem, sendo certo que é entre eles a carne humana manjar comum, e se há visto haver o pai comido mulher e os filhos. E um conheci eu, a quem falei, que se gabava de haver saboreado trezentos corpos humanos, e até estive vinte e sete dias em certa povoação, onde vi dependurada pelas habitações carne humana salgada, como entre nós se usa com o toucinho e a chacina de porco.

                                                                 III

             Digo mais: até se admiram de como nós não comamos os nossos inimigos, nem façamos uso de sua carne, que dizem saborosíssima. Suas armas são arcos e flechas; e quando se afrontam em ação não cobrem nenhuma parte do corpo para defender-se, e nisto são semelhantes aos animais. Procuramos dissuadi-los quanto nos foi possível destes bárbaros costumes, e eles nos prometeram deixá-los.

                                                                 IV

               As mulheres vão nuas, e conquanto libidinosas, como disse [anteriormente], são assaz belas e bem formadas, e pasmoso nos pareceu que, entre as que vimos, nenhuma se notava que tivesse os peitos caídos; e as que já haviam parido, pela forma do ventre e sua contração, não se diferenciavam das virgens, e se lhes semelhavam nas outras partes do corpo, do que por decência deixo de ocuparme; mas quando podiam tratar com os nossos cristãos, impelidas pelo desejo, não tinham o menos pudor […]

                                                                            V

                    A terra daquelas regiões é fértil e amena, de muitos montes e morros, e infinitos vales, e regada de grandes rios e fontes, coberta de extensos bosques, densos e apenas penetráveis, e povoada copiosamente de feras de todas as castas. Nela nascem, sem cultura, grandes árvores, as quais produzem frutos deleitosos, e de proveito ao corpo e nada nocivos, e nenhum frutos são parecidos com os nossos. Pro de que produzem-se inumeráveis gêneros de árvores e raízes de que fabricam pão e ótimos mingaus, além de muitos grãos ou sementes não semelhantes aos nossos.

                    Metais nenhuns aí se encontram, exceto o ouro, do qual há abundância, se bem que desta viagem nenhum conosco trouxemos; mas deram-nos dele notícia os habitantes, afirmando que nos sertões havia muito, mas que não o estimavam nem apreciavam.

                    […] E por certo que se o paraíso terreal existe em alguma parte da terra, creio que não deve ser longe destes países; ficando situado ao meio-dia, com ares tão temperados, que nem no inverno gela, nem no verão faz calor […]”

                                                                           VI

(Extraído de Darcy Ribeiro & Carlos de Araújo Moreira Neto – A fundação do Brasil: testemunhos 1500-1700. Petrópolis, Vozes, 1992, p. 1 0 1-1 06).

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